Golpe do falso advogado: como identificar e o que fazer

Recebeu mensagem de um suposto advogado pedindo Pix para liberar processo, precatório ou indenização? Veja como identificar o golpe e o que fazer.

Dra. Elis Xavier

9/25/20264 min read

Receber a notícia de que um processo foi ganho ou que um precatório finalmente saiu costuma trazer alívio depois de anos de espera. É exatamente essa expectativa que os golpistas exploram no golpe do falso advogado, uma fraude que já levou a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e tribunais de diversos estados a emitir alertas públicos, e que tem feito vítimas de todos os perfis, inclusive pessoas que realmente têm processos em andamento.

1. O que é o golpe do falso advogado

O golpe consiste em um criminoso se passar por advogado, servidor do tribunal ou representante de escritório de advocacia, entrando em contato, por telefone, WhatsApp ou até e-mail — para informar que a vítima tem um valor a receber: uma indenização, um precatório, um acordo trabalhista ou o resultado de uma ação judicial. O problema é que, para "liberar" esse dinheiro, seria necessário pagar antecipadamente uma taxa.

O que torna esse golpe particularmente eficiente é que os criminosos frequentemente têm acesso a dados reais do processo, número, vara, nome do juiz, e às vezes até o valor envolvido, obtidos de vazamentos de dados ou de consultas públicas em sistemas dos tribunais. Como a informação bate com a realidade, a vítima baixa a guarda.

2.Como o golpe se desenrola na prática

O roteiro costuma seguir estas etapas:

1. O contato inicial: o golpista liga ou manda mensagem citando dados verdadeiros do processo da vítima, criando credibilidade imediata;

2. A "boa notícia": informa que há um valor disponível para saque, indenização, precatório, alvará ou acordo;

3. Documentos falsos: para reforçar a farsa, envia PDFs com aparência oficial, simulando decisões judiciais, cálculos e ofícios de liberação;

4. A armadilha: para "destravar" o valor, é preciso pagar antes uma taxa, chamada de "custas", "imposto", "honorários emergenciais" ou "taxa de desbloqueio", quase sempre via Pix e com urgência;

5. O sumiço: após o pagamento, o golpista desaparece, ou pede novas "taxas" sucessivas até a vítima perceber a fraude.

Em um caso amplamente noticiado em 2026, um motorista perdeu quase R$ 30 mil depois de acreditar ter vencido um processo por danos morais relacionado à compra de um terreno, o golpista chegou a especificar exatamente quanto seria "seu" e quanto iria para o "escritório", um detalhe que reforçou a aparência de legitimidade.

3. Períodos de maior risco: liberação de precatórios

A Ordem dos Advogados de diversos estados já emitiu alertas específicos relacionados a datas de liberação de precatórios federais, quando o volume desse tipo de golpe tende a aumentar. Isso acontece porque, nesses períodos, milhares de pessoas estão de fato aguardando notícias sobre pagamentos, o que torna qualquer contato inesperado sobre "liberação de valores" mais plausível aos olhos da vítima.

4. A regra de ouro que desmonta o golpe

Existe uma única informação que, sozinha, é capaz de identificar praticamente todos os casos desse golpe: a Justiça e advogados legítimos nunca cobram taxa antecipada para liberar um valor que já é seu. Valores de processos judiciais são liberados por alvará judicial ou depósito em conta indicada nos autos, nunca mediante Pix para "destravar" o pagamento.

Qualquer pedido de pagamento prévio para "liberar" dinheiro de um processo, seja qual for o nome dado à cobrança, é sinal inequívoco de fraude.

5. Outros sinais de alerta

- Urgência artificial: pressão para pagar "ainda hoje", sob risco de perder o valor;

- Solicitação por canais informais: contato apenas por WhatsApp pessoal, sem vínculo com o processo real nos sistemas oficiais;

- Pedido de dados sensíveis: senhas, número de cartão ou chave Pix nunca são solicitados por advogados ou tribunais para "liberar" um pagamento;

- Documentos com erros de formatação, sem número de protocolo verificável ou que não conferem com o andamento processual real;

- Insistência em manter contato exclusivamente por um único canal, dificultando qualquer verificação independente.

6. Como verificar se o contato é legítimo

Antes de qualquer pagamento ou fornecimento de dados, siga este roteiro simples:

1. Não confirme nada pelo canal que fez o contato. Ligue diretamente para o seu advogado, usando um número que você já tinha antes;

2. Consulte a situação cadastral do profissional no Cadastro Nacional dos Advogados, no site da OAB;

3. Verifique o andamento real do processo diretamente no site do tribunal, usando o número informado, mas nunca um link enviado pelo golpista;

4. Desconfie de qualquer cobrança fora dos autos do processo. Custas e honorários já são tratados dentro da relação formal com seu advogado, nunca por mensagem avulsa.

7. O que fazer se você já caiu no golpe

1. Contate o banco imediatamente e formalize a contestação da transferência como fraude;

2. Registre Boletim de Ocorrência, detalhando o uso de dados reais do processo pelo golpista, esse detalhe é relevante para a investigação;

3. Reclame também junto ao Banco Central, pelo canal "Fale Conosco";

4. Guarde todos os documentos e mensagens recebidos do golpista, eles são provas importantes tanto na esfera criminal quanto para uma eventual ação de reparação;

5. Procure orientação jurídica para avaliar a possibilidade de reaver o valor, inclusive quanto à responsabilidade do banco na liberação de uma transação atípica.

8. O banco pode ser responsabilizado?

Em muitos casos, sim. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça (Súmula 479) reconhece a responsabilidade objetiva das instituições financeiras por fraudes praticadas por terceiros no âmbito das operações bancárias, especialmente quando a transação destoa do padrão de movimentação do cliente e o banco não possui mecanismos eficazes de bloqueio ou alerta diante desse tipo de operação atípica.

9. Conclusão

O golpe do falso advogado é particularmente perigoso porque usa a própria expectativa de justiça da vítima como isca, e o uso de dados reais do processo faz a farsa parecer legítima. A defesa mais eficaz é lembrar sempre da regra de ouro: ninguém precisa pagar para receber o que já é seu por decisão judicial.

👉🏻Se você recebeu um contato suspeito ou já foi vítima dessa fraude, buscar orientação jurídica rapidamente é o que define as chances reais de reverter o prejuízo. Saiba Mais

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